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3 de setembro de 2026Compulsões: quando um comportamento parece estar fora do controle
Em algum momento, todos nós podemos fazer algo por impulso: comer além da conta em uma situação específica, comprar algo sem ter planejado ou passar horas diante de uma atividade que nos proporciona prazer.
Mas quando determinados comportamentos começam a se repetir, tornam-se difíceis de controlar e passam a trazer sofrimento ou prejuízos para a vida pessoal, financeira, profissional ou para os relacionamentos, é importante olhar para isso com mais atenção.
Compulsão não é simplesmente “falta de força de vontade”.
Na minha prática clínica, percebo que muitas pessoas chegam à terapia sentindo culpa ou vergonha por não conseguirem interromper determinados comportamentos.
Por isso, considero importante começar por uma compreensão mais ampla: antes de tentar simplesmente eliminar o comportamento, precisamos entender o que está acontecendo por trás dele.
O que são compulsões?
De maneira geral, podemos falar em compulsão quando existe um comportamento repetitivo que a pessoa sente dificuldade de controlar, mesmo percebendo que ele pode trazer consequências negativas.
- comer em excesso ou apresentar episódios de compulsão alimentar;
- realizar compras de maneira repetitiva e difícil de controlar;
- jogar de forma persistente, mesmo diante de prejuízos;
- utilizar excessivamente determinadas atividades ou comportamentos como forma de aliviar emoções;
- repetir determinados comportamentos para reduzir ansiedade ou desconforto.
Por que é tão difícil parar?
Uma das questões que mais precisam ser compreendidas é que a compulsão pode cumprir uma função emocional.
Em muitas situações, o comportamento aparece como uma tentativa de lidar com sentimentos como ansiedade, tristeza, solidão, frustração, estresse, tédio ou outras emoções difíceis de administrar.
Por alguns instantes, a pessoa pode experimentar alívio, prazer ou uma redução do desconforto. O problema é que esse alívio tende a ser passageiro.
Depois, podem surgir culpa, arrependimento, vergonha ou preocupação com as consequências. E, diante de um novo desconforto emocional, o comportamento pode voltar a acontecer.
Forma-se, assim, um ciclo: emoção difícil, comportamento compulsivo, alívio momentâneo e, depois, novas consequências emocionais: compreender esse ciclo é uma etapa importante do tratamento.
Compulsão alimentar: quando comer deixa de ser apenas uma escolha
A alimentação está naturalmente relacionada a prazer, emoções e situações sociais. Comer mais em uma ocasião específica, por exemplo, não significa necessariamente ter uma compulsão alimentar.
O que merece atenção é a presença recorrente de episódios em que existe uma sensação de perda de controle sobre o ato de comer, geralmente acompanhada de sofrimento.
A compulsão alimentar pode envolver o consumo de uma quantidade de alimentos maior do que a pessoa considera habitual, associado à sensação de que não consegue parar ou controlar o que está comendo.
Também podem aparecer sentimentos de culpa, vergonha e desconforto após o episódio.
Nesses casos, é importante evitar julgamentos e dietas restritivas como resposta automática ao problema. A avaliação profissional ajuda a compreender o comportamento alimentar e os fatores emocionais envolvidos.
Compras compulsivas e outros comportamentos
A compulsão não está restrita à alimentação: algumas pessoas, por exemplo, utilizam as compras como uma maneira de lidar com ansiedade, frustração ou sensação de vazio. A compra pode proporcionar uma sensação imediata de satisfação, mas posteriormente podem surgir arrependimento, endividamento, conflitos familiares e outros prejuízos.
O mesmo princípio pode aparecer em diferentes comportamentos.
Por isso, mais importante do que perguntar apenas “qual é a compulsão?”, considero fundamental investigar:
Essa pergunta pode abrir espaço para uma compreensão muito mais profunda do problema.
Como diferenciar um comportamento ocasional de uma compulsão?
Não existe uma única característica que determine, isoladamente, se determinado comportamento é compulsivo, alguns sinais, porém, merecem atenção:
- sensação frequente de perda de controle;
- dificuldade persistente para interromper o comportamento;
- repetição mesmo diante de consequências negativas;
- utilização do comportamento para aliviar emoções desagradáveis;
- preocupação excessiva com quando ou como o comportamento poderá acontecer novamente;
- sentimentos de culpa, vergonha ou arrependimento após o episódio;
- prejuízos financeiros, profissionais, familiares, sociais ou relacionados à saúde;
- tentativas repetidas de interromper o comportamento sem conseguir mantê-lo sob controle.
O que pode estar por trás de uma compulsão?
Não existe uma causa única: aspectos emocionais, padrões de aprendizagem, características individuais, contexto familiar e social e outros fatores psicológicos podem participar da manutenção de comportamentos compulsivos.
Em alguns casos, também pode haver relação com outros transtornos ou condições psicológicas. Por isso, não considero adequado tentar identificar a causa apenas a partir de um comportamento isolado.
O comportamento é apenas uma parte da história. É preciso compreender a pessoa que está por trás dele.
Na psicoterapia, podemos investigar quando o comportamento começou, em quais situações ele aparece, quais emoções o antecedem, o que a pessoa sente depois e quais estratégias ela já tentou utilizar para lidar com a situação.
Existe tratamento?
Sim, o tratamento depende do tipo de compulsão, de sua intensidade, dos prejuízos envolvidos e das características de cada pessoa.
A psicoterapia pode ajudar no reconhecimento dos gatilhos, na compreensão dos padrões de comportamento e no desenvolvimento de estratégias mais saudáveis para lidar com emoções e situações difíceis.
Em determinadas situações, também pode ser necessária uma avaliação médica ou psiquiátrica, especialmente quando existem outros sintomas ou condições associadas.
O mais importante é que o tratamento não seja baseado apenas na tentativa de “proibir” o comportamento.
Quando procurar ajuda psicológica?
Não é preciso esperar que a situação se torne grave para buscar ajuda: se você percebe que determinado comportamento está se repetindo, sente que perdeu o controle sobre ele, tenta interrompê-lo sem conseguir ou percebe consequências negativas em sua vida, a psicoterapia pode ser um espaço importante para compreender o que está acontecendo.
Buscar ajuda não significa admitir uma fraqueza, significa reconhecer que existe um sofrimento que merece ser compreendido e cuidado.
Se você se identificou com alguns desses sinais
Talvez o primeiro passo não seja tentar se cobrar ainda mais para “parar”, pode ser mais útil começar a observar quando a compulsão aparece, o que você estava sentindo antes dela e como se sente depois.
Essas informações podem ajudar a compreender o ciclo e são, inclusive, importantes para o processo terapêutico.
Quando entendemos a função de um comportamento, começamos a encontrar outras formas de lidar com aquilo que ele estava tentando resolver.

